A tua agenda está cheia: que novo projeto merece espaço?

Por que o custo de oportunidade pesa mais quando a agenda está cheia

O custo de oportunidade é aquilo que deixas de ganhar quando escolhes uma opção em vez de outra. Quanto mais preenchida está a tua capacidade, maior é o peso dessa escolha, porque já não tens margem livre para corrigir o erro depressa.

Na aula uso a imagem dos dez diamantes: se o teu objetivo é trabalhar apenas com uma minoria de clientes muito bons e já tens nove posições ocupadas, a décima vaga vale muito mais do que uma simples conta a mais. Se a preencheres com um contrato barato e com muita fricção, ficas sem espaço para o cliente melhor que pode aparecer no mês seguinte. A equação que uso para pensar preço é tempo vezes valor vezes custo de oportunidade, e é o terceiro termo que pesa mais quando a agenda já não tem gordura.

Perto do limite, cada sim tem de justificar o que estás a fechar a porta a outra oportunidade. Vale a pena parares um momento antes de responder a uma proposta e perguntares a ti mesmo o que estás disposto a deixar cair para a aceitar.

Delegar tem um custo, mesmo quando parece libertar tempo

Na aula, quando alguém pergunta se pode simplesmente crescer a estrutura e delegar para resolver a falta de tempo, respondo que sim, é possível, mas há sempre um custo em fazê-lo. Delegar não é grátis em tempo, mesmo que pareça libertar horas de execução direta.

Esta ideia estende-se, na minha leitura, a quem hoje usa ferramentas de IA para acelerar relatórios ou comunicação com clientes. Reduzir o tempo de execução manual pode poupar minutos ou horas reais, mas normalmente não elimina o tempo de revisão. Continuas a precisar de conferir se o que saiu está correto, se o tom está certo, se não há erros a chegar ao cliente. Isso não significa que essas poupanças de tempo não tenham valor; significa apenas que valem o que valem depois de contabilizada a revisão, e não um valor infinito.

Se vais aceitar um projeto novo contando com essa poupança de tempo, inclui na conta as horas que ainda vais gastar a supervisionar o que a ferramenta ou a pessoa entregou. Podes testar isto numa tarefa pequena e medir quanto tempo de revisão ela ainda exige, antes de te comprometeres com um projeto novo assumindo que ficaste com horas livres.

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Negócios imaturos e sem histórico custam mais, não menos

Na aula explico que negócios muito imaturos, sem produto validado e sem histórico, me custam mais caro. Muita gente baixa o preço para negócios em início de vida por esperança de que a coisa cresça e o preço suba depois, e esse é um padrão que se repete indefinidamente sem nunca chegar a esse momento de cobrar bem.

Se estás quase sem espaço na agenda, aceitar um projeto de alto risco e baixo histórico pesa ainda mais, porque se ele falhar em três meses perdeste tempo que podias ter dado a um cliente estável. O preço deve refletir esse risco.

Um projeto embrionário que exige criar tudo de raiz é trabalho de produção de ativos: páginas, pixels, configurações que ficam a funcionar depois de já teres saído. Isso pesa na proposta, e deve pesar mais quanto menor for a folga que tens disponível para absorver um eventual fracasso rápido do cliente.

MARGEM, CAPACIDADE, CAIXA

O crescimento precisa de ser avaliado em conjunto com a margem, a capacidade de entrega e a disponibilidade de caixa.

Quando vale a pena aceitar menos dinheiro por mais estabilidade

Quando um cliente tem histórico consolidado, contrato assinado para vários meses e recorrência esperada real, há espaço para seres mais flexível no preço. Na aula chamo a isto pensar em lifetime value: não quero ganhar tudo no primeiro mês, quero ganhar ao longo de anos.

São os clientes de longa duração que permitem manter uma equipa estável sem a faturação em sobe e desce. Um cliente instável, que fica dois ou três meses, cria pressão constante para ires buscar substitutos, e essa pressão acaba por custar mais do que a diferença de preço que aceitaste no início.

Se tens a agenda quase cheia e aparece uma proposta com pouca previsibilidade, compara-a com o valor acumulado que os teus clientes de longa data já te garantem, e não apenas com o cheque do primeiro mês. Pergunta: se este cliente ficar só três meses, ainda assim valeu a pena ter aceitado?

O peso do portfólio na decisão sobre uma última vaga

Nem toda a decisão é só sobre dinheiro imediato. Na aula falo de projetos que interessa ter no portfólio porque abrem portas a outras negociações, mesmo que o preço não seja o mais justo do mundo. Trabalhar com uma marca grande pode servir de argumento numa negociação futura, porque o teu histórico passa a incluir esse nome.

Isto só faz sentido se a base da tua faturação já estiver protegida por outros clientes estáveis. Usar a última vaga da agenda para um projeto de prestígio só compensa se a tua estrutura não depender inteiramente dele para pagar as contas no fim do mês.

Se estás a decidir entre duas propostas parecidas em esforço, uma trazendo mais reputação e outra mais dinheiro imediato, vale a pena perguntar qual delas te ajuda mais a fechar o próximo contrato grande, e não só qual paga melhor este mês.

Red flags que devem pesar antes mesmo de calcular o preço

Na aula descrevo sinais de alerta a observar antes de chegar ao número: um cliente com expectativas desproporcionadas, à espera que o teu trabalho salve sozinho um negócio em dificuldade, ou que assume uma postura de autoridade em vez de parceria.

Quando percebo esse tipo de sinal, o preço proposto sobe para refletir a fricção esperada, e é normal que a proposta acabe por não ser aceite. É melhor fechar uma porta a tempo do que abrir espaço na agenda para um cliente que vai desgastar-te e à tua equipa durante meses.

Uma forma prática de aplicar isto é anotar, na primeira conversa, se sentes que o cliente está a ouvir-te ou apenas a dar-te instruções. Se for a segunda opção, o preço deve refletir esse desgaste esperado, ainda antes de conhecer os detalhes técnicos do trabalho.

Uma decisão sem fórmula única, mas com critérios claros

Não há tabela que diga quanto vale um projeto novo quando a agenda está quase cheia. Existe sim um conjunto de perguntas: qual o risco real deste cliente, qual a recorrência esperada, o que deixo de fazer para o encaixar, e se ele traz algo além de dinheiro.

Estas perguntas não substituem o teu julgamento, mas ajudam a organizá-lo antes de responderes com um preço ou com um não. Cada proposta nova, perto do limite da agenda, merece este pequeno exercício mental em vez de uma resposta movida apenas pelo entusiasmo do momento.

Se quiseres aprofundar como pensar preço, risco e capacidade no teu negócio online, tens mais reflexões práticas em negócios online e vendas.

Fonte: Sextas Ímpares #92

Esta reflexão parte da aula que dei em Sextas Ímpares #92, sobre como precificar o trabalho de freelancer sem desvalorização, gravada a 7 de junho de 2024. Podes ver a aula completa aqui: https://www.youtube.com/watch?v=op8b_Q-8P_g (a equação tempo vezes valor vezes custo de oportunidade surge por volta dos 25:22; a distinção sobre negócios imaturos custarem mais aparece perto dos 30:35; o raciocínio sobre lifetime value e recorrência aparece por volta dos 33:32).

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