Nas Sextas Ímpares #134, falei sobre o cenário de quem arranca um projeto com poucos recursos, sem clientes e com pouco dinheiro para investir. A ideia central é criar uma operação pequena que permita falar com potenciais clientes e aprender com essas conversas, sem depender de uma equipa.

Capa editorial: Por onde começar com IA quando estás a criar um negócio

Prepara uma oferta que consigas explicar

Escreve, em poucas linhas, a quem se destina o serviço, o problema que resolves e o que entregas em troca. Se ainda tens dúvidas sobre como o dizer, podes usar a IA para organizar as perguntas e comparar formas diferentes de apresentar a mesma ideia.

Depois disso, sai da conversa com a ferramenta e vai procurar respostas fora dela. Fala com pessoas do público que queres servir e ouve as dúvidas que elas realmente têm, não as que imaginaste. Uma descrição bem escrita, por mais afinada que fique, não prova que existe procura por aquilo que estás a oferecer.

Na aula, o exemplo que usei foi hipotético: alguém que já tem uma competência definida, por exemplo gestão de tráfego ou gestão de redes sociais, mas ainda não tem clientes nem dinheiro para investir à toa. Nesse cenário, uma página simples ajuda a apresentar a oferta e a receber contactos. O importante é confirmar se a informação está correta, se o formulário funciona e se sabes o que fazer no momento em que chega um pedido, porque isso costuma ser esquecido.

Escolhe uma tarefa que se repete

Escolhe uma tarefa que já se repete no teu trabalho e que conheças bem o suficiente para avaliar se o resultado gerado por IA está correto. Pode ser preparar uma primeira versão de uma proposta, organizar notas de reuniões ou adaptar um texto teu para outro formato.

Na aula, falei de assistentes preparados com contexto e metodologia, a ideia de dar à ferramenta informação sobre o teu trabalho, exemplos concretos e limites claros. Isto é diferente de simplesmente pedir um texto do zero: a ferramenta precisa de saber como tu escreves, como vês o teu próprio negócio e onde estão os limites do que pode dizer em teu nome. Não deve, por exemplo, inventar condições comerciais ou prazos que nunca discutiste, só para completar uma resposta que pareça coerente.

Usa materiais teus como ponto de partida e revê sempre o primeiro resultado com atenção. Quando encontrares um erro, tenta perceber se faltou contexto ou se a instrução que deste era ambígua, porque a correção é diferente nos dois casos. Vale a pena guardar essas correções, porque muitas vezes evitam que o mesmo erro se repita nas próximas vezes que usares a mesma tarefa.

Se vais construir uma aplicação, define primeiro as regras e as permissões no plano.

Para testar a procura, trabalha uma oferta que explique por que razão alguém escolheria o teu serviço.

Para acompanhar o projeto até à utilização diária, vê o percurso de desenvolvimento de aplicações com IA: primeira versão, testes e manutenção.

Organiza as conversas comerciais

Dediquei parte da emissão ao acompanhamento das reuniões comerciais, porque num negócio de serviços essas conversas são o que te vai dizer se a oferta faz sentido. Sem esse acompanhamento, é fácil perder a noção de onde estão realmente as dificuldades: se é na atração de contactos, na conversa ou na proposta em si.

Regista a origem de cada pedido, o estado da conversa e o próximo passo previsto. Uma folha de cálculo simples pode servir perfeitamente no início, desde que os acessos sejam adequados e a informação seja mantida atualizada, porque uma tabela abandonada não serve de nada.

Uma reunião marcada ainda não é uma venda, e é importante não confundir as duas coisas. Acompanha o que aconteceu depois: houve presença, houve proposta, houve decisão? Regista também por que razão algumas oportunidades não avançaram, porque isso costuma dizer mais sobre a oferta do que qualquer análise feita à pressa.

Automatiza depois de perceberes o percurso

Quando uma etapa já se repete com alguma estabilidade, e só nessa altura, considera automatizá-la. Pode ser um lembrete interno, a organização de um pedido recebido ou a preparação de um resumo, mas convém que já tenhas feito essa tarefa manualmente várias vezes antes de a entregares a uma ferramenta.

Mantém sempre uma forma de verificar falhas. Se uma integração parar de funcionar, precisas de saber onde ficou o trabalho parado e como retomá-lo sem perder o que já estava feito, porque a automação também pode falhar silenciosamente.

Começa com poucas ferramentas e uma utilização concreta para cada uma, em vez de tentar montar tudo de uma vez. À medida que a procura e a operação forem evoluindo, vais ter mais critério para decidir o que vale a pena acrescentar e o que é só complexidade a mais.

Se queres aprofundar como aplicar automação e IA ao dia a dia de um negócio digital, consulta a minha formação e acompanhamento em IA e negócios online.

Como preparar uma conversa para validar a procura sem usar a IA como prova

Validar procura significa falar com pessoas reais antes de assumir que a tua oferta funciona. A IA pode ajudar a preparar perguntas e organizar respostas, mas não substitui a conversa. Prepara um guião curto, escolhe quem contactar e trata cada conversa como uma fonte de informação, não como confirmação.

Define o que queres perceber antes de marcares a conversa. Pergunta como a pessoa lida hoje com aquela dificuldade, o que já tentou e o que a faria procurar outra solução. Deixa espaço para ouvir respostas que contrariem a tua ideia; são essas que te ajudam a perceber o que precisa de mudar.

Escreve três a cinco perguntas abertas sobre o problema, não sobre a solução. Por exemplo, imagina que estás a testar um serviço de organização financeira para pequenos negócios. Em vez de perguntares "pagarias por uma ferramenta assim", pergunta "como resolves hoje o controlo das tuas contas" e "o que te falta nesse processo". As respostas dizem-te muito mais do que um sim educado.

Usa a IA apenas na fase de preparação, para rever se as perguntas estão claras e não são sugestivas. Podes pedir-lhe que aponte perguntas que já contêm a resposta desejada, um erro comum quando escrevemos com pressa. O que a IA não pode fazer é dizer-te se a pessoa do outro lado vai realmente pagar pelo serviço.

Marca as conversas com pessoas fora do teu círculo direto, idealmente gente que não te conhece e não tem razão para ser simpática contigo por educação. Este é um passo hipotético de exemplo: se contactares dez pessoas do público que definiste e conseguires marcar três conversas, já tens material para perceber padrões. Menos do que isso ainda não te dá uma base sólida para decidir seja o que for.

Durante a conversa, regista frases exatas, não resumos otimistas. Se a pessoa disser "isso seria útil" sem se comprometer com nada concreto, marca isso como interesse fraco. Se perguntar preço, prazo ou como começar, é sinal mais forte. A diferença entre curiosidade e procura real está nestes detalhes.

Depois de cada conversa, escreve num documento simples o que ouviste, sem interpretar demasiado no momento. Só depois de teres quatro ou cinco conversas registadas é que vale a pena procurar padrões. Um único caso pode ser exceção, vários casos parecidos já são sinal.

Evita mostrar um protótipo feito com IA como se fosse prova de validação. Uma descrição bem escrita ou uma maqueta bonita não confirmam que alguém vai pagar. O que confirma é a pessoa comprometer-se com algum passo concreto, como marcar uma segunda conversa, aceitar testar algo real ou falar em condições de pagamento.

Se depois de várias conversas continuares sem sinais claros de procura, isso também é informação valiosa. Talvez o problema não seja assim tão urgente para o público que escolheste, ou talvez a forma como o descreves ainda não esteja alinhada com a linguagem das pessoas. Este processo de conversas está ligado ao que descrevo sobre organizar as conversas comerciais, onde o registo do que acontece depois da primeira reunião é igualmente importante.

Escreve a oferta, conversa com potenciais clientes e regista o que aprendeste. Usa essa informação para rever a oferta; uma resposta da IA não comprova procura.
Escreve a oferta, conversa com potenciais clientes e regista o que aprendeste. Usa essa informação para rever a oferta; uma resposta da IA não comprova procura.

Como organizar a primeira semana de trabalho com uma oferta e poucas ferramentas

A primeira semana deve servir para testar a oferta com pessoas reais, não para preparar ferramentas perfeitas. Define três blocos: escrever a oferta, contactar potenciais clientes e registar o que aprendes. Tudo o resto pode esperar até teres conversas suficientes para saber o que precisa de existir.

Começa o primeiro dia por escrever a oferta numa página curta, sem preocupação estética. Um exemplo hipotético: alguém quer oferecer apoio na organização financeira de pequenos negócios. Nesse caso escreveria quem é o cliente, que problema resolve nas primeiras semanas e o que entrega ao fim de um mês. Não precisa de ser definitivo, precisa de ser claro o suficiente para ser testado numa conversa.

No segundo dia, identifica dez a quinze pessoas ou negócios que possam encaixar no perfil descrito. Não é preciso uma lista sofisticada, um documento simples com nome, contacto e razão pela qual pensaste nessa pessoa já é suficiente. O objetivo é ter contactos concretos antes de pensares em anúncios ou automações.

No terceiro e quarto dia, marca as primeiras conversas. Nessas conversas, ouve mais do que falas. Pergunta como resolvem hoje o problema que a oferta pretende resolver e o que os faria confiar num novo serviço. Anota as palavras exatas que usam, porque muitas vezes servem para melhorar a descrição da oferta.

Ao fim de cada conversa, regista três coisas: o que a pessoa disse sobre o problema, se demonstrou interesse real e qual foi o próximo passo acordado. Esse registo pode ser uma folha simples, com uma linha por contacto. Sem esta disciplina, é fácil perder o fio à meada quando aparecem cinco ou seis conversas na mesma semana.

No quinto dia, revê o que recolheste. Se a maioria das pessoas não reconheceu o problema como prioritário, a oferta pode precisar de ajuste antes de avançares para qualquer ferramenta ou automação. Se pelo contrário houve interesse consistente, começa a pensar no que precisa de existir para dar resposta ao primeiro pedido real.

Só depois desta primeira ronda de conversas é que faz sentido decidir se vale a pena usar IA para preparar propostas, resumos de reuniões ou respostas a perguntas frequentes. Usar a ferramenta antes de teres clareza sobre a oferta arrisca produzir materiais bem escritos sobre algo que ainda não sabes se tem procura.

Uma boa forma de decidir onde investir tempo é olhar para o que se repete todos os dias durante essa semana. Se todas as conversas exigem explicar o mesmo ponto, talvez valha a pena preparar um documento de apoio. Se cada pedido é diferente, é sinal de que ainda estás em fase de descoberta e não de padronização.

Ao final da semana, conta as conversas que fizeste, organiza as objeções e revê a oferta com base no que ouviste. Guarda também as perguntas a que ainda não consegues responder. São elas que vão orientar a semana seguinte e ajudar-te a escolher o próximo teste.